Há alguns anos atrás, eu era bastante empolgado em escrever textos técnicos. Quando tinha um problema ou aprendia algo novo, fazia questão de compartilhar com a comunidade em forma de texto. Era uma época boa: eu publicava no Dev.to, no LinkedIn e até mantinha um blog por algum tempo. Alguns textos chegaram a viralizar, gerando discussões interessantes e me permitindo conhecer pessoas por conta disso.
De repente, os modelos de linguagem generativa (Oi, ChatGPT 3.5) se popularizaram e uma explosão de textos técnicos tomou conta dessas plataformas.
Escrever sempre foi minha forma de compartilhar conhecimento, sedimentar o que estudava e, de certa forma, destacar-me na comunidade. Então de repente, com a IA, bastava um prompt para ter algo pronto para publicar. As redes sociais ficaram cheias de postagens genéricas, repetitivas e sem profundidade; algumas até promoviam desinformação. O volume de textos foi tão grande que eu não só desanimei em escrever, como também em consumir. Preferi voltar a livros e blogs de pessoas consolidadas. Minha impressão foi de que a comunidade cresceu, mais vozes surgiram, mas junto veio muito ruído.
Meu processo de escrita sempre envolveu pesquisar, colocar em prática, elaborar exemplos, escrever rascunhos, pedir revisões de pessoas próximas e só então publicar. Não era rápido, mas era divertido; eu sentia que estava consolidando conhecimento e, no fim, tinha segurança do que compartilhava. Hoje esse processo pode ser simplificado: em alguns minutos já é possível ter um texto razoavelmente aceitável para publicação. Quem lê, no fim das contas, não conhece todo o processo de escrita; logo, minhas publicações seriam apenas mais uma entre dezenas e dezenas.
Desanimei, sentindo que não havia espaço nem algo relevante para compartilhar; afinal a IA já tinha todas as respostas.
Foram dois anos sem publicar nada, mas isso não significa que parei de escrever. Fazer anotações sempre foi parte da minha forma de aprender. Nesses dois anos aprofundei-me em vários temas: algoritmos e estrutura de dados, programação funcional, a linguagem Go, concorrência, paralelismo, system design, arquitetura de software, cloud, DDD e outros. Sinto que, como programador, absorvi muito conteúdo, mas fui contra o que se prega em “Learn in public”. Minhas anotações são pessoais, distribuídas em cadernos, Obsidian, Notion e notas do celular; estão longe de estarem bem formatadas para publicação.
Recentemente a vontade de compartilhar voltou a crescer. Tudo começou com o hábito de manter um diário; nele anoto meus dias e pensamentos. Logo, escrevia reflexões mais profundas sobre minhas observações diárias. Aos poucos, voltei à escrita estruturada e pensei que agora seria um bom momento para publicar novamente.
Hoje encaro a IA como um auxiliar. Não faz sentido pedir que modelos de linguagem gerem um post apenas por engajamento, mas eles podem ser úteis na revisão e formatação de textos, no brainstorming e até na sugestão de temas e reescritas. É como diz o ditado: “Se não pode vencê‑los, junte‑se a eles.”
Outro ponto que amadureci é o escopo dos temas que posso abordar. Tinha uma visão muito técnica; minhas publicações eram direcionadas a resolver problemas ou ensinar algo. Agora vejo que o real valor está na minha visão sobre um tema, relacionado ou não ao universo da programação. Qualquer dúvida ou problema técnico eu sei que a IA já é capaz de ajudar, mas o diferencial de um texto é o ponto de vista do autor, as ponderações e reflexões sobre o tema. Isso é o que me atrai em uma leitura, e sei que posso transmitir isso na minha escrita.
Minha ideia agora é publicar o que considero relevante para discussão, independentemente do tema. Tecnologia, programação, arquitetura de software e temas relacionados ainda fazem parte do meu dia a dia; é inevitável que eu aborde essa temática, mas também deixarei espaço para outras reflexões diárias.
É isso :) Estou de volta, outra vez!